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terça-feira, 10 de maio de 2016

Voa beija-flor!



Quando eu era criança, vivia a caçar passarinhos. Não para fazer o mal a eles, mas por curiosidade de poder vê-los mais próximos de mim e senti-los também. No entanto, a minha sina sempre foi a de capturar um beija-flor. Era um desafio, uma missão, pois não tinha armadilhas e o passarinho sempre arisco ao beijar as flores, além do bater de asas freneticamente, não me dava a mínima chance de realizar tal ato.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas, seja ela boa ou ruim. Então agora já adulto, lá estava eu a lavar as mãos na pia de um estabelecimento fechado por vidros, quando me deparo com um dos meus maiores desafios de infância, o beija-flor. No primeiro momento apenas o observei, enquanto que continuava ali lavando as mãos. Só que por um instante, percebi que o pobre passarinho encontrava-se estressado e cansado por não saber por onde sair. Ele estava diante de uma cilada transparente e espessa, o vidro. E para piorar tudo aquilo, a única saída seria a de descer a escada daquele lugar. Mas isso com certeza não passara pela cabeça dele naquele momento de agonia. Podia ali ser os seus últimos voos antes do último suspiro para morada espiritual.Só que a natureza, que não fala e não pensa, mas consegue dizer o que quer através de linguagens próprias, deu uma última chance ao pequeno beija-flor. E quis o destino que a cartada final dependesse de mim. 

E foi exatamente nesse momento que o sonho de criança tornara realidade. O humilde beija-flor pousou numa planta de vaso que ficava ao lado da pia daquele lugar, e ao fazer isso o passarinho das flores como se quisesse dizer algo, olhou-me com seus olhos cansados, apáticos e respirando fundo me dizia que já não aguentava mais todo aquele sofrimento e que precisava de minha ajuda. Naquele momento, apesar da situação adversa, realizava ali meu primeiro desejo, o de poder ver pessoalmente um beija-flor parado e com suas pequenas e delicadas penas aplumadas ao seu corpo. Mas a vida quis mais. Devagar, com receio que ele voasse, levei minhas mãos até o pequeno ser voador, quando consegui realizar meu segundo desejo, o de pegar e sentir a leveza e a delicadeza daquele passarinho. Não estava voando, mas o importante é que tudo quis um dia fazer quando moleque estava sendo realizado naquele minuto. Então a natureza, naquele momento, me deu uma nova missão, salvar o beija-flor. Eis que desço então a escada, com o pequeno beija-flor nas mãos, e com um ato singelo o soltei dando a ele a liberdade de viver a bater as asas freneticamente novamente e beijando as flores a bailar. E assim foi, e assim o beija-flor voou para nunca mais voltar.